Autoestima
Autoestima na era das redes: comparação, likes e o valor próprio
Por Luiza Vitória de Sousa Lustosa · CRP-21/072946 min de leitura
Resumo
Comparar-se é humano — mas as redes transformaram a comparação em atividade contínua contra adversários editados. O resultado frequente: a sensação de estar sempre atrás. Este artigo examina o mecanismo e aponta caminhos para uma autoestima que não dependa de métricas.
Uma vitrine sem hora de fechar
A comparação social sempre existiu — é até um mecanismo natural de auto avaliação. O que mudou foi a escala: antes nos comparávamos com vizinhos e colegas; hoje, com um feed infinito de recortes editados dos melhores momentos de milhares de pessoas.
O jogo é estruturalmente injusto: você compara seus bastidores — dúvidas, contas, dias ruins — com o palco alheio. Nenhuma autoestima sai ilesa de um campeonato em que o adversário só mostra as vitórias.
Sinais de que o feed está pesando
Vale se observar com honestidade:
- Sair das redes sentindo-se pior do que entrou, com frequência;
- Medir o próprio dia pela régua da vida dos outros;
- Adiar planos ('postar', viajar, empreender) por sentir que nunca está à altura;
- Checar compulsivamente likes e visualizações do que publica;
- Sensação difusa de estar 'atrasado' na vida — no amor, na carreira, no corpo.
O olhar da Gestalt: valor não é métrica
Na Gestalt-terapia, a autoestima fragilizada costuma revelar um deslocamento do centro de avaliação: a régua que mede seu valor foi parar do lado de fora — nos pais, nos chefes, e agora no algoritmo. Enquanto o critério for externo, nenhuma conquista sacia, porque a aprovação precisa ser renovada a cada post.
O trabalho terapêutico ajuda a trazer a régua de volta para dentro: reconhecer necessidades e valores próprios, digerir os introjetos de perfeição ('tenho que dar conta de tudo e ainda parecer feliz') e construir uma relação consigo que não dependa de plateia.
Práticas de proteção (que não exigem sair das redes)
Além do trabalho mais profundo, alguns cuidados práticos ajudam:
- Cure seu feed: deixe de seguir perfis que sistematicamente te diminuem;
- Estabeleça janelas sem tela — especialmente ao acordar e antes de dormir;
- Ao se pegar comparando, nomeie: 'estou comparando meus bastidores com o palco de alguém';
- Cultive fontes de valor fora das métricas: vínculos presenciais, corpo em movimento, criação sem publicação;
- Note o que você sente após usar cada rede — e deixe esse dado orientar seu uso.
Perguntas frequentes
Preciso sair das redes para melhorar minha autoestima?
Não necessariamente. Para a maioria das pessoas, o caminho é um uso mais consciente — curadoria do feed, limites de tempo e atenção ao que sente. O trabalho de base, porém, é interno: fortalecer um valor próprio que não dependa de validação externa.
Autoestima baixa se resolve com pensamento positivo?
Frases motivacionais não alcançam a raiz. A autoestima se reconstrói na experiência: relações que respeitam, escolhas alinhadas com os próprios valores e, muitas vezes, um processo terapêutico que revise as vozes internas críticas.